Momento culta: Ser superficial

Aos poucos estamos perdendo as referências. Estamos nos tornando seres tão desprovidos emocionalmente que suprimos nossa carência com aquilo que podemos comprar. Descartamos nossos príncipios, seguimos padrões de beleza, pois todo artista deve ser feliz! "Gente bonita não tem depressão", pensamos. Quanta hipocrisia. Quanta falta de amor próprio. E assim, esticamos a pele pois a velhice nos assusta. Venderíamos a alma para sermos imortais. Compramos carros caros, só para manter o status. Passamos o dia com a maquiagem inteira, sorriso no rosto, como se fossemos irredutíveis. Todavia, assim como nasce, o sol se põe todos os dias. E assim, a carruagem vira abóbora e descemos do salto. Nossas lágrimas molham os travesseiros e nos perguntamos o porquê. Então, assistindo seriados americanos, afogamos nossas mágoas no chocolate, e por um momento pensamos que somos felizes. Mas não somos. E no dia seguinte, descobrimos que o problema está naquela jóia que não compramos, no vestido que não serve, e na falta de silicone! Nos iludimos tanto que parecemos seres inatingíveis. Mas um dia, no auge da superficialidade, finalmente percebemos. Assim, as máscaras caem, uma a uma. E pouco a pouco, somos obrigados a encarar a realidade. Vemos que não nos resta mais nada além da aparência. Que aquela propaganda na televisão, vendia apenas um creme anti-rugas e não a fórmula para a felicidade. Logo a depressão nos domina, e aos prantos, vamos procurar ajuda. E assim finalmente descobrimos que estamos perdendo a coragem. É muito mais simples se submeter à faca de um cirurgião plástico novo no mercado, que se relacionar com alguém. Afinal, somos independentes, não precisamos de ninguém ao nosso lado para ser feliz... Quem sabe daqui a alguns anos, não namoremos um andróide: ele não pode nos amar de verdade, mas também não vai nos machucar. Vale tudo para não borrar a maquiagem.
(Gabriela de Aguiar Nunes)

2 Comments:

  1. Priscila Santos Martins said...
    Pô Gabi, sensacional! Espero que as suas palavras sirvam para muita gente refletir sobre a sociedade do espetáculo em que vivemos. Abraço, Priscila Santos Martins.
    Pati said...
    FANTÁSTICO!!!AMEI! :D

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